quarta-feira, setembro 16, 2009

SOCIEDADE AÇUCAREIRA

A sociedade da região açucareira dos séculos XVI e XVII era composta, basicamente, por dois grupos. O dos proprietários de escravos e de terras compreendia os senhores de engenho e os plantadores independentes de cana. Estes não possuíam recursos para montar um engenho para moer a sua cana e, para tal, usavam os dos senhores de engenho. O outro grupo era formado pelos escravos, numericamente muito maior, porém quase sem direito algum. Entre esses dois grupos existia uma faixa intermediária: pessoas que serviam aos interesses dos senhores como os trabalhadores assalariados (feitores, mestres-de-açúcar, artesãos) e os agregados (moradores do engenho que prestavam serviços em troca de proteção e auxílio).
Ao lado desses colonos e colonizados situavam-se os colonizadores: religiosos, funcionários e comerciantes.
A sociedade açucareira era patriarcal. A maior parte dos poderes se concentrava nas mãos do senhor de engenho. Com autoridade absoluta, submetia todos ao seu poder: mulher, filhos, agregados e qualquer um que habitasse seus domínios. Cabia-lhe dar proteção à família, recebendo, em troca, lealdade e deferência. Essa família podia incluir parentes distantes, de status social inferior, filhos adotivos e filhos ilegítimos reconhecidos. Seu poder extrapolava os limites de suas terras, expandindo-se pelas vilas, dominando as Câmaras Municipais e a vida colonial. A casa grande foi o símbolo desse tipo de organização familiar implantado na sociedade colonial. Para o núcleo doméstico convergia a vida econômica, social e política da época.
A posse de escravos e de terras determinava o lugar ocupado na sociedade do açúcar. Os senhores de engenho detinham posição mais vantajosa. Possuíam, além de escravos e terras, o engenho. Abaixo deles situavam-se os agricultores que possuíam a terra em que trabalhavam, adquirida por concessão ou compra. Em termos sociais podiam ser identificados como senhores de engenho em potencial, possuindo terra, escravos, bois e outros bens, menos o engenho. Compartilhavam com eles as mesmas origens sociais e as mesmas aspirações.
O fato de serem proprietários independentes permitia-lhes considerável flexibilidade nas negociações da moagem da cana com os senhores de engenho. Eram uma espécie de elite entre os agricultores, apesar de haver entre eles um grupo que tinha condições e recursos bem mais modestos.
Esses dois grupos - senhores de engenho e agricultores -, unidos pelo interesse e pela dependência em relação ao mercado internacional, formaram o setor açucareiro. Os interesses comuns, porém, não asseguravam a ausência de conflitos no relacionamento. Os senhores de engenho consideravam os agricultores seus subalternos, que lhes deviam não só cana - de - açúcar, mas também respeito e lealdade. As esposas dos senhores de engenho seguiam o exemplo, tratando como criadas as esposas dos agricultores. Com o tempo, esse grupo de plantadores independentes de cana foi desaparecendo, devido à dependência em relação aos senhores de engenho e às dívidas acumuladas. Essa situação provocou a concentração da propriedade e a diminuição do número de agricultores.

*TIPO DE FAMÍLIA:
sociedade no período do açúcar era marcada pela grande diferenciação social. No topo da sociedade, com poderes políticos e econômicos, estavam os senhores de engenho. Abaixo, aparecia uma camada média formada por trabalhadores livres e funcionários públicos. E na base da sociedade estavam os escravos de origem africana.
Era uma sociedade patriarcal, pois o senhor de engenho exercia um grande poder social. As mulheres tinham poucos poderes e nenhuma participação política, deviam apenas cuidar do lar e dos filhos.
A casa-grande era a residência da família do senhor de engenho. Nela moravam, além da família, alguns agregados. O conforto da casa-grande contrastava com a miséria e péssimas condições de higiene das senzalas (habitações dos escravos).
família senhorial, ela é extensa, agrupando
a família nuclear (pai, mãe e filhos) parentes, filhos de
criação, filhos bastardos, além dos já citados empregados e
os escravos que trabalhavam na casa-grande, que era onde
viviam essas pessoas.
Entretanto, esse é apenas um modelo familiar dentre os inúmeros
tipos de famílias existentes à época. Havia famílias
mais simples, compostas apenas de pais, mães e filhos. Além
de solteiros e famílias lideradas por viúvos e viúvas. Isso mesmo,
famílias lideradas por mulheres, em geral resultantes de
ausência, abandono ou morte do marido.aspecto que a historiadora chama a atenção é para o
fato de que famílias nem sempre compartilhavam um domicílio.
Se havia lares em que as famílias eram extensivas, com todos
os agregados e parentes próximos, havia também aqueles em
que a família nuclear compartilhava o espaço com um ou dois
escravos. Sem falar dos padres que, por vezes, conviviam
com suas concubinas e escravas.

*OS TRABALHADORES LIVRE:
o empregado não é obrigado a se sujeitar as regras do patrão. Ele pode ir embora a hora que bem entender. E geralmente tem direitos garantidos por lei.
trabalhadores brasileiros livres em diversas atividades nas fazendas de café e na construção de ferrovias em São Paulo na segunda metade do século XIX.população livre e pobre com relação ao trabalho em uma sociedade escravista e em um país com uma fronteira aberta, atitudes que revelariam a resistência desses trabalhadores em mudar um modo de vida baseado em valores culturais tradicionais para um outro mais metódico e disciplinado. A recusa ao trabalho, em vez de expressar o caráter indolente do brasileiro, revelaria o caráter independente e autônomo desses indivíduos
O crescimento da população livre brasileira foi contínuo ao longo do século XIX. A reprodução natural, a emancipação de escravos e a imigração contribuíram para que o número de pessoas livres fosse sempre maior que o número de escravos em quase todas as províncias do Império, desde o início do século XIX. Em São Paulo, apesar do incremento da população escrava até a década de 1880, provocado pela rápida expansão cafeeira, o número de escravos não atingia mais do que 30% da população total. De acordo com Eisenberg, até nas zonas mais produtivas do café, no Vale do Paraíba e no Oeste Velho, a população livre constituía a grande maioria.4
Os trabalhadores livres e pobres, brancos ou negros, desempenhavam as mais diversas atividades e ocupavam-se dos mais diversos ofícios urbanos e rurais. Eram agregados, camaradas, empreiteiros, pedreiros, carpinteiros, pequenos sitiantes, vendedores ambulantes, vendeiros, empregados das tropas e da construção de estradas de ferro, entre outros. Como pequenos proprietários, esses indivíduos trabalhavam muitas vezes temporariamente, ou por empreitada, nas fazendas de café da vizinhança. Politicamente dependentes dos fazendeiros, esses trabalhadores sobreviviam de favores, trocados por votos, trabalho e proteção, por exemplo. Os pequenos lavradores, além de alugarem seus serviços, estabeleciam relações de trabalho com outros indivíduos, que muitas vezes não possuíam recurso algum. Geralmente contratavam camaradas que os ajudavam em períodos de muito trabalho. (Moura, 1996, p. 37).
Aqueles que não eram proprietários eram admitidos nas fazendas como agregados, tinham acesso a terras marginais, onde podiam plantar para sua subsistência. Em troca, eles desempenhavam diversas atividades, ligadas à produção, administração, supervisão e proteção das fazendas. Os nacionais podiam também ser empregados como camaradas, trabalhadores independentes, contratados por empreitada, locação de serviços ou diaristas. Além dos trabalhos na produção e cultivo do café, podiam derrubar matas e limpar o terreno para o plantio, construir e conservar os caminhos e estradas, cuidar do transporte local do produto, ajudar em época de colheita, cultivar gêneros de subsistência para a fazenda. Esses trabalhadores e suas famílias constituíam um potencial significativo de mão-de-obra que era recrutada nos momentos de pico do trabalho, para atividades que colocassem em risco a vida dos escravos ou que não eram do interesse dos imigrantes.
É difícil estimar a quantidade de trabalhadores brasileiros empregados nas fazendas de café. Mas o seu número nas mais diversas modalidades de arranjos de trabalho parece ter sido bastante significativo e claramente aumentou com o alargamento da fronteira agrícola e com a expansão das plantações de café. No município de Rio Claro, por exemplo, em 1822, de um total de 224 propriedades rurais, 151 (67,4%) eram de proprietários que lavravam terras próprias, e a grande maioria sem escravos (120). O restante, 73 (32,6%) propriedades, era ocupado por rendeiros, agregados, colonos e outros; em geral, famílias pobres demais, instaladas em minifúndios, que não podiam prover rendas, nem mesmo subsistência. Em 1857, ainda em Rio Claro, de um total estimado de 820 propriedades, 448 (54,6%) eram de proprietários que lavravam terras próprias, a grande maioria sem escravos (393). O número de propriedades ocupadas por rendeiros, agregados, colonos e outros aumentou para 372, perfazendo um total de 45,4%. Warren Dean observou que na década de 1850 o surgimento de um grande número de minifúndios indica que muitos pequenos proprietários estavam sendo marginalizados: eles deixaram de produzir gêneros para o mercado e passaram a trabalhar em tempo parcial nas fazendas. (Dean, 1977, p. 33-34).
É a partir de meados da década de 1850, com a extinção do tráfico internacional de escravos e depois das primeiras experiências frustradas com imigrantes europeus, que os fazendeiros passam a ver os trabalhadores brasileiros como uma fonte viável de mão-de-obra alternativa ou complementar ao trabalho escravo, especialmente nas regiões de fronteira. Além de mais numerosos, a partir de meados do século os trabalhadores brasileiros passaram a estabelecer com as fazendas um relacionamento em bases mais precisas, mais previsíveis, constituídas por contratos escritos. Parece evidente que as experiências com os trabalhadores imigrantes, com o regime de parceria e outras modalidades de contratos, devem ter influenciado essa tendência. Como observou Floriano de Godoy, uma das principais conseqüências da "colonização particular" em São Paulo foi "chamar famílias brasileiras para o trabalho agrícola, submetendo-as ao regime das colônias." (Godoy, 1875, p. 133). Em 1859, o presidente da província de São Paulo sugeriu em seu relatório que brasileiros livres eram a melhor solução para o problema dos "braços para a lavoura" e pediu apoio para a promoção de recrutamento local.5
Evidências esparsas revelam alguns números e arranjos feitos com brasileiros livres pelos fazendeiros paulistas na década de 1850. Em 1853 a colônia da fazenda Morro Grande, na região de Rio Claro, empregava 23 imigrantes portugueses e 17 brasileiros. Em 1857 a colônia já tinha 24 portugueses e 43 brasileiros. Sublinhando os problemas e conflitos com os trabalhadores imigrantes, o proprietário João Ribeiro dos Santos relatou em 1859: "as famílias ou indivíduos brasileiros que compõem a colônia estão submetidos ao mesmo regime de parceria tal como os imigrantes e as dívidas daqueles são menores; eles pagam os seus débitos mais facilmente e aumentam suas economias."6
Em 1856, a colônia Boa Vista de Benedito Antônio de Camargo, em Rio Claro, empregava 42 brasileiros num total de 228 colonos. Camargo tinha começado sua colônia apenas com imigrantes portugueses, mas em 1857 deu início ao engajamento de famílias brasileiras, garantindo-lhes um lote de terra para o plantio de gêneros de subsistência. Em troca, as famílias deviam cuidar dos pés de café (carpir) e ajudar na colheita.7 Em 1855, as colônias de Souza Queiróz, em Limeira, possuíam 87 brasileiros e em 1857 chegaram a 305 brasileiros num total de 625 colonos. Souza Queiróz adotava contratos de parceria e de locação de serviços.8 Ao final da década de 1870, nas fazendas São Gerônimo e Cresciúmal, propriedades do Barão de Souza Queiróz em Limeira e Pirassununga, havia 688 trabalhadores livres, incluindo 339 brasileiros; na colônia Santa Bárbara, também propriedade do Barão em Limeira, havia 304 trabalhadores livres, dentre os quais 250 brasileiros.9
De acordo com um relatório enviado ao presidente da província em 1854, São Paulo contava com 2.618 fazendas de café, que empregavam 55.834 escravos, 2.519 colonos e 4.223 agregados. O mesmo relatório estima que havia na província 667 engenhos de açúcar, empregando 15.641 escravos, 10 colonos e 698 agregados; e ainda 532 fazendas de gado, empregando 4.342 escravos, e 1.767 agregados.10 Quando de sua viagem às províncias do Rio de Janeiro e São Paulo, no início da década de 1860, o cônsul suíço Tschudi encontrou colonos brasileiros entre os parceiros de várias fazendas de café. (Tschudi, 1953, p. 159 e p. 186). Em 1872, em um dos maiores distritos cafeeiros, Rio Claro, cerca de 1.700 pessoas livres, entre agregados e sitiantes, eram empregadas nas fazendas da região, enquanto o número de escravos era de 2.753. Em 1876, 45 fazendas em Rio Claro empregavam trabalhadores livres e escravos; 22 empregavam apenas escravos. (Dean, 1977, p. 123).
A partir de meados da década de 1870, há claramente um aumento do número de brasileiros empregados nas fazendas. Além da aprovação da Lei do Ventre Livre em 1871, que instaurou o processo de emancipação gradual dos escravos e tornou mais premente a busca de alternativas ao trabalho escravo, o dinamismo que a expansão cafeeira imprimia à economia de São Paulo e a ampliação da fronteira atraíam pessoas de várias regiões do País para a província.
A contribuição da migração interna para o aumento da população nas regiões cafeeiras ainda é uma incógnita. Warren Dean observou o relativo esquecimento das correntes migratórias internas pela bibliografia e, referindo-se à região cafeeira, afirmou que: "a migração interna de trabalhadores livres de outras províncias constituía um fator tão constante do crescimento das fazendas que é surpreendente que tenha recebido tão pouca atenção." Segundo o autor, o contingente de brasileiros em Rio Claro era heterogêneo, composto, inclusive, por migrantes que fugiam da grande seca nas províncias do Nordeste. Em torno de três mil desses migrantes se fixaram no oeste paulista entre 1877 e 1878, sendo que mais de 600 foram contratados pela fazenda Angélica. (Dean, 1977, p. 118-119).
Examinando a região de Campinas, Denise Moura observa que desde meados de 1850 a presença do migrante foi delineando aos poucos os traços sociais e cotidianos da cidade. Segundo a autora, a intensificação do fluxo migratório para essa região só ocorreu a partir de meados da década de 1870. Entre 1854-1874, Campinas recebeu em torno de 9.000 pessoas, "número superior ao número de imigrantes". O progresso ocorrido com a expansão cafeeira e a multiplicação das atividades urbanas e rurais atraíram famílias e indivíduos de municípios das regiões do Rio de Janeiro e Minas Gerais. (Moura, 1996, p. 116). José de Souza Martins (1990, p. 71) também observa que vieram centenas de baianos para São Paulo com a obrigação de plantar café na fazenda Guatapará. Manuscritos do Arquivo do Estado revelam numerosas listas de retirantes nordestinos que vinham para São Paulo fugindo da seca e em busca de melhores oportunidades de trabalho.11 Listas de dezenas de famílias de retirantes cearenses foram remetidas ao Agente de Colonização em 1878 solicitando passagens e seu encaminhamento a diversos pontos da Província de São Paulo, incluindo Capivari, Amparo, Tatuí, São Bernardo, Cordeiro e Campinas, dentre outros. (Lamounier, 1988, p. 127).
À medida que se adentra na região de fronteira – São Carlos, Araraquara, Ribeirão Preto e outras –, a presença do brasileiro, especialmente do migrante, fica ainda mais marcante. Os migrantes ocupavam-se das mais diversas atividades na derrubada das matas, na formação dos cafezais, na colheita, na cultura de subsistência, no transporte dos gêneros, na conservação e manutenção das estradas, na construção civil e em várias atividades urbanas. Ao lado dos migrantes que se estabeleciam, havia os migrantes de passagem, seja por ocuparem profissões que os obrigavam a estar em trânsito, como cocheiros, tropeiros e carroceiros, seja por estarem em busca de outras terras, na fronteira. Enquanto não partiam também desempenhavam tarefas, por empreitada, por exemplo.
Durante a maior parte do século XIX, as referências aos trabalhadores brasileiros sempre foram negativas. Eles eram geralmente caracterizados como indolentes e preguiçosos. Há, no entanto, uma mudança no tom das declarações, especialmente as oficiais, a partir das décadas de 1860 e 1870. Em São Paulo, muitos políticos e fazendeiros passaram a sugerir e recomendar os trabalhadores brasileiros, como uma alternativa viável à escravidão. Os brasileiros passaram a ser vistos como mais "à mão", solução mais imediata e mais barata para o problema tão urgente da mão-de-obra. Não se abandonavam os planos de imigração européia, mas achava-se que essa última era uma solução a ser implementada no longo prazo.
As opiniões divergiam com relação ao melhor modo de recrutamento e engajamento dos brasileiros. Muitos fazendeiros reclamavam da instabilidade, da falta de aplicação e regularidade dos trabalhadores brasileiros. Se os agregados, que conseguiam maior segurança com relação à posse de um lote de terra, tornavam-se mais confiáveis fornecendo mão-de-obra para as fazendas, o mesmo não se pode dizer dos camaradas. Os camaradas eram um elemento transiente entre a população livre, não possuíam garantias de acesso à terra e à proteção do fazendeiro do mesmo modo que os pequenos sitiantes ou agregados; por outro lado, sentiam-se mais livres para deixar o trabalho nas fazendas quando bem entendessem. Sempre havia a perspectiva de novas terras e de emprego em outros lugares. Aparentemente, parecia mais fácil para eles abandonar a fazenda, uma tendência que os proprietários percebiam como preguiça e imprevidência.
A insegurança das condições em que viviam os camaradas também os tornava alvos mais fáceis de exploração. Evidentemente, sem a proteção de um proprietário poderoso podiam ser presos como vadios e obrigados a trabalhar em obras públicas. A preocupação com a vadiagem foi uma constante ao longo de todo o século XIX. Desde a elaboração do Código Criminal de 1830, uma série de leis, que incluíam posturas municipais e termos de bem-viver, assim como cláusulas específicas em legislações referentes a trabalhadores livres e em legislações gradualistas, buscava forçar livres pobres e ex-escravos ao trabalho. Para alguns fazendeiros, contratos de trabalho de longo prazo e legislações mais repressivas constituíam uma forma de assegurar disciplina e regularidade no trabalho. Para outros, contratos serviam para introduzir esses trabalhadores livres em formas diversas de relações de trabalho, ensiná-los noções de ética e disciplina de trabalho regular. (Lamounier, 1988).
Durante o Congresso Agrícola, realizado no Rio de Janeiro em 1878, os fazendeiros de café debateram várias propostas sobre o modo de encaminhar o problema da mão-de-obra. As sugestões abrangiam o uso de imigrantes europeus e asiáticos, a criação de milícias rurais e a coerção de brasileiros por meio de contratos draconianos reforçados por legislações repressivas. A proposta de uma "Comissão nomeada pelos lavradores de São Paulo" favorecia claramente a promoção da imigração de europeus. A proposta aceitava também o engajamento de asiáticos como "um meio de transição". Na opinião da Comissão, os trabalhadores brasileiros eram "indolentes" e resistentes ao "trabalho regular". (Congresso Agrícola, 1878, p. 75-77). Mas durante os debates, vários outros fazendeiros paulistas sugeriram e defenderam mecanismos que incentivassem os nacionais a fornecer trabalho mais regular e estável. Para o fazendeiro de Queluz, Manoel de Freitas Novaes, por exemplo, os trabalhadores brasileiros eram os melhores. Ele se orgulhava de ter tido por quase vinte anos uma colônia só com "caboclos", que começou com quatro famílias (sem contratos) e que na época já contava "com 500 e tantos brasileiros, muitos deles filhos e netos dos primeiros colonos." Os trabalhadores da colônia encontravam-se sob os mais diversos arranjos de trabalho: parceiros (ou a meia) que eram pagos "no dia em que colhem o café", outros que entregavam o café preparado, e outros que eram pagos "a jornal ou empreitada". O fazendeiro acreditava que o trabalhador brasileiro era melhor que o estrangeiro, "porque entra no mato e, incólume, derruba as árvores; ao passo que o estrangeiro entra no sertão e fica inutilizado pelos insetos que o atacam." (Congresso Agrícola, 1878, p. 139 e p. 160-161).
O fazendeiro de São Carlos do Pinhal, Francisco Geronymo Bittencourt Coelho, também relatou que seus trabalhadores eram, em sua maioria, brasileiros. (Congresso Agrícola, 1878, p. 168). Domingos José Nogueira Jaguaripe Filho, expressando a opinião dos membros do Cube da Lavoura (associação de fazendeiros) de Rio Claro, também defendia os trabalhadores brasileiros. Ele rejeitava fortemente as propostas de importação de imigrantes chineses contratados. Na verdade, Jaguaripe Filho declarava-se opositor de qualquer proposta de importação de imigrantes contratados. A melhor alternativa, a seu ver, era a imigração européia espontânea. No entanto, ele julgava que tal imigração ainda demoraria muito tempo para acontecer; em sua opinião, a solução para o problema que "era tão urgente" era a criação de "milícias agrícolas", que reunissem os pobres dispersos pelo país. (Congresso Agrícola, 1878, p. 157-160).
Para muitos fazendeiros não havia escassez de trabalhadores. O problema da "falta de braços" não era demográfico, mas político; a questão era como mobilizar essa força de trabalho potencial que constituía a população livre e pobre brasileira. Apesar de mostrar-se uma alternativa viável ao trabalho do imigrante e ao trabalho do escravo, o emprego de trabalhadores brasileiros exigia reformas complexas, muitas delas controversas e de custos políticos e econômicos grandes. Havia uma forte resistência à isenção do serviço militar e não se confiava na eficácia de uma legislação contra a vadiagem.
Na opinião, por exemplo, de F. José de Queiroz e Moreira de Barros, da região de Taubaté, "se bem empregados" os braços existentes eram suficientes para sustentar o incremento e a rápida expansão da lavoura cafeeira. Argumentando a favor do uso de "aperfeiçoamentos modernos", máquinas e novos instrumentos agrícolas, Moreira de Barros observava que os fazendeiros "precisam também aproveitar melhor os braços de que dispõem, e os processos usados em seus estabelecimentos agrícolas." Segundo Moreira de Barros, além do serviço da cultura de terras e da colheita de produtos, o agricultor precisava ainda de muitos jornaleiros para vários tipos de trabalho: limpar pastos, fazer derrubadas, construir açudes, matar formigas, secar café e outros serviços nos terreiros, beneficiar café, entre outros. Esses últimos não eram serviços prestados por colonos ou realizados por empreitada; mas mais adequados aos jornaleiros. Na época, segundo o relato, além dos escravos, utilizavam-se libertos nesses serviços. (Congresso Agrícola, 1878, p. 185-190).
Poucos meses depois da realização do Congresso Agrícola no Rio de Janeiro, uma nova legislação, a lei de locação de serviços de 1879, foi formalmente aprovada. O grande mentor da reforma, Nabuco de Araújo, havia completado seu projeto e participara dos debates na Câmara e no Senado, mas não sobrevivera para ver sua proposta definitivamente aprovada quase sem mudanças. O texto era bastante complexo e chegou-se a comentar que mais parecia um "código rural". A Lei dava providências para os contratos de trabalho efetivados especificamente na agricultura e ampliava garantias para os contratos com brasileiros, imigrantes e libertos, contratados sob vários sistemas, como a parceria, a empreitada e a locação de serviços.
A Lei de Locação de Serviços veio, evidentemente, complementar a Lei do Ventre Livre e prevenir os efeitos da implementação da política de emancipação gradual. Na época, rebeliões escravas e greves de trabalhadores imigrantes estavam deixando os fazendeiros atônitos e preocupados. A Lei de 1879 era uma tentativa de incentivar várias categorias de trabalhadores a formalizar as relações que estabeleciam por meio de contratos, cujas condições seriam garantidas pela aplicação da lei e de suas penalidades para os infratores. A Lei estabelecia condições diferentes para os vários trabalhadores. Por exemplo, o prazo do contrato: 3 anos para imigrantes europeus, 5 anos para os brasileiros e 7 anos para os libertos. A Lei estabelecia sanções severas, como prisão e trabalho forçado, para aqueles que não cumprissem as condições dos contratos ou participassem de rebeliões e greves. (Lamounier, 1988, cap. 2). Paralelamente, o texto providenciava para que houvesse estrito controle sobre a mobilidade geográfica dos libertos e estabelecia sanções contra a vadiagem.12
Na época da aprovação da Lei de Locação de Serviços, a produção cafeeira em São Paulo estava em franca expansão. A quantidade de café exportada pelo Porto de Santos aumentara de 543.425 sacas em 1870 para 1.204.328 sacas em 1880; em 1890, atingiu 3.048.327 de sacas. (Saes, 1996, p. 181). O número de quilômetros de trilhos de ferrovias construídos em São Paulo aumentara de 139km em 1870 para 1.212km em 1880, chegando, em 1890, a 2.425km. A expansão das ferrovias permitiu o alargamento da fronteira agrícola e a área plantada com café crescia rapidamente: de 60.462.000 cafeeiros em 1870 para 69.540.000 em 1880 e 106.300.000 em 1890. (Mattoon, 1977, p. 286).
Além da sazonalidade da agricultura, que regulava a oferta e demanda de trabalho, a expansão da malha ferroviária também afetava – mas de modo contraditório – a questão da mão-de-obra. Se, por um lado, as ferrovias contribuíam para reduzir a demanda de mão-de-obra, liberando trabalhadores engajados no antigo sistema de mulas, por outro, elas contribuíam para aumentar a necessidade de trabalhadores ao ampliar a fronteira agrícola, favorecendo a incorporação de novas terras para cultivo. Além disso, as ferrovias demandavam um grande número de trabalhadores para a sua construção. Para os trabalhadores engajados na construção das ferrovias, no entanto, as oportunidades oferecidas pelo setor pareciam se harmonizar com os interesses da agricultura de exportação, como será visto a seguir.
*O TRABALHO ESCRAVO:
foram os escravos que durante todo o período colonial sustentaram o desenvolvimento da nossa esconomia."A sociedade brasileira formou-se e modificou-se em função das necessidades e interesses econômicos do capitalismo. No séc. XVI, as potências européias procuravam acumular capital. A solução para se chegar a um custo baixo de produção foi a utilização do trabalho escravo. No caso de Portugal essa situação era agravada pelo fato de o país não possuir excedente populacional que pudesse suprir a colônia. Além disso, os baixos salários não estimulavam a vinda de colonos para o Brasil.
Assim, os portugueses, que já exploravam o mercado africano de escravos, precisaram apenas ampliar o negócio, organizando e transferindo essa mão-de-obra para o Brasil. Ao contrário dos indígenas, os negros africanos já estavam habituados ao trabalho agrícola, ao pastoreio e à utilização de ferramentas e instrumentos feitos de metais. Tornaram-se mão-de-obra fundamental da produção açucareira, enquanto os índios continuaram a ser escravizados prioritariamente nas áreas de economia de subsistência e apenas ocasionalmente em engenhos.
Na colônia formaram-se duas classes antagônicas: a dos todo-poderosos senhores de engenho, vivendo na casa-grande, e a dos negros escravos, na senzala, praticamente inexistindo camadas sociais intermediárias. No entanto, “os escravos são as mãos e os pés do senhor de engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar a fazenda, nem ter engenho corrente” . Essa afirmação foi feita por Antonil, em Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e suas minas, obra publicada em 1711. A frase expressa com grande realismo papel do escravo negro na sociedade brasileira colonial.

*O TRAFICO NEGREIRO:
Ao contrário do que a história oficial ensina em muitas escolas brasileiras, os portugueses não encontraram na África "um bando de negros, selvagens, semi-nus", mas sim encontraram civilizações adiantadas e ricas.
A religião, a política e os costumes sociais de Ioruba davam o modelo de uma vasta zona. Os negros de Ioruba eram principalmente agricultores, mas os seus tecelões, os seus ferreiros, os seus artistas em cobre, ouro e madeira já gozavam de merecida reputação e excelência. Criavam-se animais de subsistência - cabras, carneiros, porcos, galinhas e pombos. O cavalo era conhecido há muitos séculos, devido ao contato com os árabes. O fundador do reino de Ioruba representava-se, nos mitos, montado num corcel. Em Gana e na Nigéria utilizavam-se enxadas de ferro antes que os portugueses soubessem o que era isso.
Para caçar os negros na África, Portugal estimulou as guerras entre tribos. Os portugueses firmavam alianças com chefes de algumas tribos, que perseguiam outras. E cumpriam as regras do "jogo", só embarcando os negros realmente escravos. Os portugueses iniciavam o contato com os chefes dando presentes, como tecidos finos, vinhos, espadas, enfeites. Em troca, iam pedindo "coisas". Primeiro coisas de comer, depois gente, depois os chefes já estavam dependentes dos produtos portugueses, estes passavam a cobrar impostos.
Em 1620 havia 204 chefes africanos obrigados a entregar escravos aos portugueses, além de animais, panos, e etc. Isso gerou muitas tensões e revoltas na África. Os negros que eram presos e entregues aos portugueses eram marcados com ferro em brasa, e trabalhavam perto do porto, em roças de mandioca e outros trabalhos, até o embarque. Mesmo na África, os negros nunca aceitavam passivamente a escravidão.
As marchas e a longa viagem pelo Atlântico ocorriam em condições terríveis. Eram jogados nos porões imundados e abafados dos navios negreiros ou tumbeiros. Só um em cada três africanos capturados sobrevivia. Baseado nisso, especialistas calculam que a escravidão negra vitimou cerca de sessenta milhões de pessoas entre os séculos XV e XIX.
Os negros eram embarcados na costa ocidental africana, depois de capturados nas regiões onde hoje ficam Guiné-Bissau, Costa do Marfim, Angola e Moçambique. Alguns percorriam milhares de quilômetros na selva, acorrentados, antes de embarcar nos navios negreiros.
A distribuição dos negros no Brasil obedeceu a ciclos econômicos. Os primeiros grupos entravam pelo nordeste e se espalharam nas plantações de açúcar, cacau, e fumo. Durante o século XVIII, os negros foram usados na mineração, com predominância em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. No século XIX, trabalharam nas plantações de café de Rio, São Paulo e nas charqueadas do Rio Grande Do Sul.
A maioria dos negros destinados ao Sul e ao Sudeste pertencia à etnia banto, majoritária no centro-sul da África. Para a região Nordeste predominou o tráfico de Iorubas, negros oriundos da Guiné e das proximidades da Nigéria (noroeste da África).
Submetidos a jornadas diárias de até dezoito horas de trabalho braçal, os negros escravos sobreviviam dez anos. Quando morriam, eram imediatamente repostos. Era mais barato ao proprietário comprar um africano novo do que esperar uma criança crescer para se transformar em escrava.
A igreja apoiou o tráfico de negros. O papa Nicolau V, em 1454 autorizou o mercado escravo de africanos pela bula "Romanus Pontifex". A Igreja justificava o tráfico dizendo que o negro era pagão, e a escravidão era uma forma de salvar o negro, salvar sua alma, prometendo-lhe a vida eterna, depois da morte.
À medida que o tráfico negreiro se intensificou e se transformou num elemento estrutural da colonização, a escravidão foi se convertendo em escravismo, portanto num sistema.
O escravismo colonial, diferentemente do escravismo antigo, foi estruturalmente mercantil, porque a produção açucareira estava toda voltada para o mercado externo, almejando o lucro. Os escravos eram produtores de mercadorias a serem vendidas pelos senhores de engenho.
Por outro lado, o próprio escravo era adquirido através do comércio entre senhores de engenho e traficantes que pertenciam à burguesia metropolitana.
Portanto o escravismo colonial no período açucareiro estruturou-se como sistema integrando três camadas sociais: o escravo, o senhor de engenho e a burguesia metropolitana, na qual se incluiu o traficante de escravos.
Como o próprio nome indica, o escravismo colonial é um sistema que se baseia numa dupla exploração: a escravista e a colonial. E, conforme se observa no esquema , a exploração escravista refere-se à exploração dos senhores de engenho. Ocorre, entretanto, que tendo a exploração um caráter colonial, a maior parte da riqueza acabava se transferindo para as mãos da burguesia mercantil e, também, para o Estado metropolitano.
Eram fiscalizados pelo feitor do engenho, um trabalhador livre, com carta branca do senhor na administração da "negrada". Havia ainda os capitães-do-mato, responsáveis pela captura de negros fugitivos "vivos ou mortos" e por dar o "bom exemplo" aos demais negros, aplicando castigos muito cruéis, a ponto de matar entre chicotadas, sal nas costas e risos estridentes e estarrecedores.
Inventou-se que a raça negra era inferior, que negro não tinha alma, os jesuítas eram indiferentes à sua escravidão e tortura continua. O negro era mercadoria e, como tal, considerado máquina de trabalhar. Gente nunca. Mesmo assim, contra todas essas advertências, os negros não se submeteram à escravidão.
*OS QUILOMBOS:
História dos quilombos
No período de escravidão no Brasil (séculos XVII e XVIII), os negros que conseguiam fugir se refugiavam com outros em igual situação em locais bem escondidos e fortificados no meio das matas. Estes locais eram conhecidos como quilombos. Nestas comunidades, eles viviam de acordo com sua cultura africana, plantando e produzindo em comunidade. Na época colonial, o Brasil chegou a ter centenas destas comunidades espalhadas, principalmente, pelos atuais estados da Bahia, Pernambuco, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Alagoas.
Na ocasião em que Pernambuco foi invadida pelos holandeses (1630), muitos dos senhores de engenho acabaram por abandonar suas terras. Este fato beneficiou a fuga de um grande número de escravos. Estes, após fugirem, buscaram abrigo no Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas.
Esse fato propiciou o crescimento do Quilombo dos Palmares. No ano de 1670, este já abrigava em torno de 50 mil escravos. Estes, também conhecidos como quilombolas, costumavam pegar alimentos às escondidas das plantações e dos engenhos existentes em regiões próximas; situação que incomodava os habitantes.
Esta situação fez com que os quilombolas fossem combatidos tanto pelos holandeses (primeiros a combatê-los) quanto pelo governo de Pernambuco, sendo que este último contou com os ser­viços do bandeirante Domingos Jorge Velho.
A luta contra os negros de Palmares durou por volta de cinco anos; contudo, apesar de todo o empenho e determinação dos negros chefiados por Zumbi, eles, por fim, foram derrotados.
Os quilombos representaram uma das formas de resistência e combate à escravidão. Rejeitando a cruel forma de vida, os negros buscavam a liberdade e uma vida com dignidade, resgatando a cultura e a forma de viver que deixaram na África e contribuindo para a formação da cultura afro-brasileira.


Quilombola é a denominação atribuída aos habitantes dos quilombos.
Atualmente há várias comunidades negras rurais, remanescentes
dos antigos quilombos. O uso da terra pelos quilombolas é coletivo,
assentado em laços de parentesco e vizinhança. 
A origem de Palmares é anterior a 1600. Não se sabe exatamente o ano. Sabe-se que os escravos de um engenho se rebelaram, e tomaram o engenho. Ficaram então diante de um problema: se ficassem no engenho, seriam esmagados pelas tropas do governo. Se levantassem aldeias no litoral, ficariam livres por um certo tempo, mas seriam apanhados mais cedo ou mais tarde pelos capitães do mato. Os escravos decidiram então ir para uma região desconhecida, perigosa e temida pelos brancos : a região de Palmares . O nome "Palmares" foi dado porque havia mata fechada, sem luz, cheia de mosquitos e animais perigosos. A floresta se estendia por muitas serras, cercadas por precipícios. Homens, mulheres e crianças caminharam por muito tempo pela floresta, até escolherem um lugar para fundar uma aldeia. O lugar escolhido, na serra da Barriga, foi o início da República dos Palmares.
No começo, viviam de caça, pesca, coleta de frutos. Para os africanos isso era voltar para trás, pois na África tinham sido povos agricultores, pastores, artesãos, comerciantes e artistas. Era preciso de mais gente em Palmares, pois com mais braços seria possível desenvolver mais o quilombo. Pouco a pouco a população de Palmares aumentou. E a produção econômica também. Havia palmarinos com muitos conhecimentos de metalurgia do ferro, com técnicas trazidas da África. Agora, em Palmares, podiam criar, com seu conhecimento, o que era necessário ao quilombo. Também houve crescimento na agricultura.
Palmares chegou a ter onze povoações conhecidas, os quilombos chegaram a cobrir uma área de 350 quilômetros, de norte a sul, em terras que hoje pertencem ao estado de Pernambuco e ao estado de Alagoas. As principais vilas perto de Palmares eram Porto Calvo, Alagoas, São Miguel, Una, Ipojuca e Serinhaém.
Desde seu início, Palmares estava aberto a todos os perseguidos pelo sistema colonial. Vinham para Palmares negros com as mais diferentes origens africanas, inclusive com diferentes tradições religiosas e de costumes. Vinham índios, vinham brancos pobres, vinham mestiços. Os quilombolas não tinham preconceito de cor ou raça .O que os unia era o fato de que todos eram pobres, oprimidos e explorados.
Dentro dos povoados palmarinos havia uma rua. Os maiores tinhamtrês a quatro ruas. Ao longo da rua havia casas de madeiras, cobertas com folhas de palmeiras. No centro havia um largo, com uma casa de conselho, uma capela, oficinas dos artesãos, mercado e poço.
Cada povoação tinha um chefe, escolhido por sua força, inteligência e habilidade. Tinha também um conselho, que controlava o chefe. As decisões sobre os problemas mais complicados eram tomadas em uma assembléia geral, da qual participavam todos os adultos da povoação. Havia leis rigorosas, com pena de morte para roubo, adultério, homicídio e deserção.
A língua falada era uma língua própria, misturando português, línguas africanas e indígenas. Na religião, combinavam elementos das religiões africanas e cristã. As capelas tinham imagens dos dois tipos. A presença da língua portuguesa e da religião cristã nos quilombos, misturada com outras línguas e religiões, se deve a muita coisa. Uma das coisas que se pode dizer é que provavelmente serviam para unificar pessoas que vinham de culturas muito diferentes. Isto é, na África, os negros que agora estavam em palmares tinham pertencido a tribos diferentes, e até mesmo inimigas. E a religião e a língua de Palmares tinham de incluir a todos, sem privilegiar uma tribo em prejuízo de outra. Para isto, os negros pegavam no "cristianismo" aquilo que eles têm de libertados, e jogavam fora o "cristianismo" que era ensinado pelos padres nas senzalas, ensinando o escravo a ser passivo e submisso ao senhor de engenho.
Em 1602 houve uma primeira perseguição contra Palmares. Quem ia nas expedições contra Palmares sempre buscava com isso conseguir vantagens pessoais. Havia senhores de engenho, interessados em arrebentar uma rebelião de escravos. Havia oficiais militares, interessados em impressionar o rei de Portugal e ganhar alguma coisa em troca. A maioria da tropa era formada por mamelucos, brancos pobres e negros libertos, que pretendiam capturar negros e depois vendê-los. Havia também índios, que se contentavam com pequenos presentes. Alguns pretendiam capturar negros para comerem. Todos esses pobres buscavam melhorar um pouco a miséria em que viviam.
Essa primeira expedição voltou dizendo que tinha destruído totalmente o quilombo. Aliás, as expedições seguintes, por anos e anos, sempre voltavam dizendo isso. E sempre era falso. Logo vinham notícias das atividades dos palmarinos nas redondezas.
Em 1630 os holandeses invadiram a capitania de Pernambuco. Ate certo ponto, Palmares saiu ganhando com isso, porque os portugueses passaram a guerrear com os holandeses. Quando os holandeses invadiram Olinda, e as tropas portuguesas se retiraram, os escravos saem as ruas, incendiando a cidade. As tropas holandesas entram na cidade, apagam o incêndio e saqueiam a cidade por 24 horas.
Os portugueses e os senhores de engenho organizam a defesa contra os holandeses, utilizando a guerra de guerrilhas. Mas em 1635 os holandeses conseguem vencer a resistência.
Os portugueses enfrentam duas frentes de batalha: de um lado os holandeses, de outro os escravos e os índios. Muitos índios se passam para o lado dos holandeses, contra os portugueses, descarregando sobre estes toda crueldade de que haviam sido vítimas. Uns poucos permanecem com os portugueses, sob o comando de Felipe Camarão, a maioria por dinheiro.
Os negros, entretanto, não escolhem nem portugueses, nem holandeses. Sabiam que nenhum dos dois era flor que se cheirasse. Na Bahia, os holandeses haviam tido apoio de negros, e depois os entregaram aos portugueses para serem novamente escravos. Foi uma das muitas guerras onde ricos usaram pobres.
Em 1644, o governador holandês Mauricio de Nassau enviou uma primeira expedição contra Palmares. Pouco conseguiu. Em 1645, Nassau organizou outra expedição contra Palmares, comandada por um especialista em guerra de emboscada. Foi um fracasso total. A expedição nem conseguiu avistar o inimigo, encontrou apenas duas aldeias abandonadas.
Outra expedição parte. Fez alguns prisioneiros, que foram repartidos entre soldados. Ainda em 1655 houve mais duas outras expedições, uma armada pelos senhores de engenho, outra pelo governador; ambas sem resultados.
Em 1674, o governador de Pernambuco começa a preparar uma grande expedição. Promete aos voluntários a propriedade dos negros presos; manda vir índios da Paraíba e do Rio Grande do Norte e convoca os negros organizados sob o comando de Henrique Dias, cuja tropa chama-se "Terço dos Henriques". Mas a expedição novamente fracassa.
Quando o governador convidou os para atacar Palmares, em 1675, eles não aceitaram. Estavam acostumados a caçar índios, que se expunham aos ataques, mesmo com inferioridade de armas, e morriam assim aos milhares. Já os negros eram tão hábeis na guerra que haviam derrotado grandes militares de Pernambuco. Os negros tinham táticas de recuo, de emboscada, de fortificação e muitas armas. Assim, o governador organiza outras expedições com gente da região, mas sem sucesso.
Em 1676 partem novas expedições. Em uma delas, são capturados parentes de Ganga-Zumba. Os portugueses propõem a seguinte negociação: garantia de terra, direitos e liberdade aos negros que se rendessem.
No dia 18 de junho de 1678, entra em Recife uma embaixada de Palmares, com quinze pessoas, incluindo três filhos de Ganga-Zumba, para fazer acordo. Era uma traição aceitar este acordo, pois ele dizia que os negros nascidos fora de Palmares voltariam à escravidão. Mas Ganga-Zumba aceitou o acordo. Houve muita luta dentro de Palmares. Uma pequena parte da população acompanhou Ganga-Zumba. Em novembro do mesmo ano, Ganga - Zumba foi a Recife, confirmar pessoalmente o acordo. Foi recebido solenemente pelo governador. Pouco depois, partia para Cucaú, distante 32 quilômetros de Serinhaém, onde viveriam nas novas terras prometidas pelo acordo. Enquanto isso, o governador distribuiu 150 léguas de terras palmarinas a grandes proprietários pernambucanos. Como sempre, os livres e pobres que esperavam terras como recompensa, nada receberam. Mas nem os "premiados" conseguiram tomar posse de "suas" terras. Quando tentaram nelas entrar, foram violentamente repelidos pelos palmarinos.
Palmares não havia morrido. Foi apenas uma pequena parte que acompanhou Ganga-Zumba. A maioria ficou, agora sob comando de um general que lutaria até a morte pela liberdade dos negros : Zumbi.
Muito jovem ainda, Zumbi já era chefe de um das povoações. Na época do acordo feito com Ganga-Zumba, 1678, Zumbi era também chefe das forças armadas de Palmares.
No entanto, a classe dominante procurou ocultar a grandeza. Hoje, o nome "Zumbi" é visto como nome de assombração, saci ou diabo. Isso porque Zumbi assumiu a luta de seu povo. E os bandeirantes, que na verdade foram uns selvagens, são vistos como heróis.
Muitos chefes militares importantes desertaram junto com Ganga-Zumba. Era um grande perigo para os que ficavam, pois os portugueses poderiam ter informações completas sobre a organização de Palmares. Então Zumbi reorganiza toda a vida de Palmares, em função da guerra, que mais cedo ou mais tarde certamente viria.
Em 1692, o bandeirante Jorge Velho chega a Palmares, ataca, mas é combatido pelos palamarinos, que o obrigam a recuar. Cego e ódio, o bandeirante descarregou sua loucura degolando duzentos índios. Ainda em 1692, o padre Antônio Vieira escreve ao rei de Portugal, dizendo que não havia nenhuma possibilidade de negociação com os "quilombas". Se continuassem livres em Palmares, e em paz, seriam um exemplo aos escravos. O único jeito era destruir totalmente Palmares.
O governo anuncia que os voluntários para guerrear contra Palmares receberiam comida. Os padres, nas missas, pregam o dever de todos de participar da "cruzada contra Palmares". E a tropa que se formou, em 1694, tinha nove mil homens. Chegando a Macaco, a tropa tem uma grande surpresa. A povoação estava incrivelmente defendida. Por dois dias, o exército fica sem saber o que fazer. Tenta dois ataques, fracassados, e encomenda novos reforços.
Chegam os reforços, trazendo também canhões, que eram um tipo novo de arma. Houve uma grande batalha, e Macaco foi incendiada. Os palmarinos lutavam bravamente. Os sobreviventes entravam na mata. Domingos Jorge Velho fica em Palmares, e aproveita para saquear as fazendas locais.
Havia vários grupos negros, armados no mato. Um deles era chefiado por Antônio Soares, que foi capturado pelos paulistas André Furtado de Mendonça. Foi torturado e delatou o esconderijo de Zumbi, em troca de liberdade e vida. Antônio Soares chega ao esconderijo, na mata. Zumbi o recebe de braços abertos, mas é retribuído com um punhal na barriga. Os paulistas atacam, e os negros não se rendem, preferindo morrer. Assim, em 20 de novembro de 1695 morre Zumbi. Sua cabeça foi cortada e exposta em praça pública, em Recife.
Vários palmarinos foram para a Paraíba, onde, com outros negros e índios, fundaram o quilombo Cumbe, que era muito combativo, e sobreviveu até 1731. Outros grupos negros permanecem no litoral, chefiados por Camoanga, atacando povoações para sobreviver.
As terras de Palmares foram divididas entre senhores de engenho.Mas até 1710, grupos armados negros combatiam na região. As terras ficaram abandonadas, transformadas em grandes latifúndios. Muitos perseguidos e lavradores sem terras buscam refúgio nas matas de Palmares.
 

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